THE GODFATHER E A CULTURA BRASILEIRA
O primeiro filme da trilogia O Poderoso Chefão (The Godfather no original, ou seja, o padrinho em inglês) é uma excelente ilustração de dois problemas da cultura brasileira: o apadrinhamento que marca as relações públicas como relações pessoais e marcada por favores; e a separação entre a vida religiosa e a vida do dia a dia.
O primeiro dos nossos problemas culturais já aparece ilustrado na cena inicial do filme. Eis o contexto: Amerigo Bonasera (Salvatore Corsitto) busca vingança contra o ex-namorado de sua única filha e contra um outro rapaz que tentaram violentar a moça e, ao não conseguirem tal intento, acabaram por espancá-la e desfigurá-la. Depois de buscar a justiça, percebeu que os rapazes ficaram ipunes, provavelmente por serem "americanos", não ítalo-americanos.
A frustação de Bonasera é recente. Ele sempre tentou viver de acordo com as leis americanas, confiando em seu sistema econômico e jurídico. Mas diante da leniência da justiça, ele tenta achar vingança apelando a Vítor Corleone (Marlon Brando), o Dom Corleone, alguém que tem uma penca de capangas que atuam de forma paralela à lei americana.
Bonasera oferece dinheiro a Dom Corleone para que esse ordene a morte, e quando percebe que isso é pedir muito, a surra dos agressores de sua filha. A proposta financeira ofende ao poderoso chefão, pois o que mais lhe interessa é uma relação de apadrinhamento, uma relação, como ele diz, de amizade. Espera-se respeito, submissão e favores, não um pagamento impessoal.
Aqui está a semelhança com a nossa cultura. Tanto na política secular - infelizmente muitas vezes também na eclesiástica - as relações pessoais são o que determinam o êxito ou não nos pleitos institucionais. O apadrinhamento é mais importante do que capacidade, habilidade ou experiência. Muitas das relações institucionais em nosso país são marcadas pelas trocas de favores e pelo clientelismo.
Assim, é mais fácil apelar para um poderoso chefão que oferece amizade do que apelar para frieza da lei. Nosso país e boa parte de nossa vida social são principalmente gestados através da subjetividade do apadrinhamento e não através da objetividade das relações pautadas na justiça e na legalidade.
Uma segunda cena do filme serve de ilustração para um outro problema cultural brasileiro. Trata-se do momento em que Michael Corleone, filho de Vítor e agora o Dom Corleone, participa - como padrinho - do batismo do sobrinho. O sacerdote pergunta se Michael renuncia a Satanás, ao que o novo poderoso chefão responde dizendo que sim. Contudo, a resposta é limitada ao âmbito do religioso, porque a cena mostra a alternância entre cenas do espaço sagrado (o batismo) e da vida mafiosa do padrinho, no caso, seus capangas matando os outros poderosos chefões rivais dos Corleone.
Essa é outra realidade da cultura brasileira. A separação entre a vida religiosa e a vida do dia a dia. A ética dissociada da fé. A vida do domingo bem diferente da vida no restante da semana. Isso tudo sem crise de consciência, porque as obrigações religiosas foram cumpridas nos espaços considerados sagrados.
Concluindo, é possível perceber que a cultura romanista e italiana, nesses aspectos mencionados, não difere tanto da cultura romanista e ibérica, que tanto influenciou a cultura, inclusive a vida religiosa, do povo brasileiro, como é possível perceber na cultura política, na vida em sociedade e até na igreja brasileiras.
Que o povo de Deus que mora no Brasil corrija essas duas falhas morais, entendendo que é bom quando a sociedade é justa, o que implica, muitas vezes, na frieza da lei e das normas. Por outro lado, que entenda também que não deve separar a vida religiosa do restante da vida, mas, antes, compreenda que a vida toda deve ser vivida na presença de Deus.
São Paulo, 03 de junho do ano do Senhor de 2024.

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